Warning: count(): Parameter must be an array or an object that implements Countable in /home/storage/7/c0/a3/marimbus/public_html/wp-includes/post-template.php on line 275

Warning: count(): Parameter must be an array or an object that implements Countable in /home/storage/7/c0/a3/marimbus/public_html/wp-includes/post-template.php on line 275

Warning: count(): Parameter must be an array or an object that implements Countable in /home/storage/7/c0/a3/marimbus/public_html/wp-includes/post-template.php on line 275

Warning: count(): Parameter must be an array or an object that implements Countable in /home/storage/7/c0/a3/marimbus/public_html/wp-includes/post-template.php on line 275

Pantanal na Literatura

Livro101x160

Além dos marimbus

Narrativa da viagem que fez Jenner Nogueira Chaves às matas de Andaraí para compra de uma fazenda onde extrair madeiras.

Herberto Sales

História, geografia e ecologia dos marimbus no romance de Herberto Sales.

 

As pedras e metais preciosos determinaram a ocupação humana do prolongamento da Serra do Espinhaço no interior da Bahia, território ainda inóspito até meados do século XIX, quando os primeiros diamantes foram encontrados nos aluviões de Mucugê, Igatu, Andaraí e Lençóis.

O drama da vida humana em torno das riquezas minerais, com seus sucessos, angústias e derrocadas é material fértil para a literatura e não faltam obras ambientadas nesses cenários da Bahia, das Minas Gerais, do Mato Grosso. Herberto Sales, nascido e criado em Andaraí, encabeça a antologia com O Cascalho, narrativa ficcional com forte inspiração em fatos reais de sua terra natal diamantífera. Inicialmente publicado em 1944, depois amadurecido e reescrito para a edição definitiva de 1951, tornou-se um clássico do romance brasileiro.

Mas a Chapada não é apenas diamantina. Com o olhar voltado para a serra, empenhado em revolver cada palmo quadrado da superfície na sua vertente leste, hipnotizado na perseguição da pedra reluzente, o garimpeiro não dava atenção ou valor à grande riqueza que jazia na planície logo abaixo: o solo fértil e a mata exuberante. Avessa à disciplina paciente da agricultura e à organicidade da indústria, a mentalidade garimpeira imediatista teve a que direcionar sua energia quando as lavras já não compensavam todo o esforço:  a exploração, também imediatista, da madeira nobre, abundante nas matas centenárias.

A partir da década de 1930 a extração da madeira deu à economia local novo fôlego, como o carbonato – diamante  negro utilizado nas ferramentas das grandes obras de engenharia – igualmente dera sobrevida ao ciclo diamantino, drasticamente afetado pelas descobertas abundantes e mais valiosas no sul da África no final do século XIX.

Já em 1945 Herberto Sales concebeu os primeiros capítulos de um novo romance ambientado na Chapada, voltando-se para a paisagem geográfica e humana da floresta densa e da agricultura incipiente em meio e além da planície alagada, em contraste com aquela da serra, tendo a cidade de Andaraí como superfície de contato e intersecção. Mais tarde retomado e também amadurecido, Além dos marimbus foi publicado apenas em 1961, confirmando-o como mestre da prosa, o que o levaria à Academia Brasileira de Letras dez anos depois.

Além dos marimbus revela o pioneirismo da visão ecológica em Herberto, expressa na sabedoria do personagem João Camilo, antigo morador daquelas matas, que “tornara-se conhecido, em toda a região, pela singularidade dos seus hábitos de vida”; via ambição desmedida nos empreendimentos madeireiros, protegia “todos os bichos mansos”, não consentindo a caça na sua fazenda: “os trabalhadores têm permissão de matar os bichos que prejudicam as plantações, mas não podem dar um tiro num marreco ou numa pomba”. João Camilo causa “espanto sincero, enternecido de respeito” no protagonista Jenner Chaves, comprador de madeiras com “interesses muito imediatos e pessoais para se ocupar com os problemas daquele fazendeiro visionário”, em longo diálogo que é ponto chave no entrecho dessa obra de leitura prazerosa.

Hoje vivendo no ambiente geográfico do romance, somos testemunhas da fidelidade na descrição do meio físico retratado por Herberto Sales em Além dos marimbus. A obra nos permite reconhecer ou redescobrir belezas que subsistiram à agressão ou omissão irresponsáveis desde então e perceber os efeitos da ambição inconsequente que o enredo anuncia.

Fazemos aqui uma homenagem ao seu autor, transcrevendo trechos da obra que retratam a paisagem e o cenário, e ilustrando-os com imagens atuais do ambiente que, se não pode mais ser repristinado, ainda cede generosamente aos esforços de conservação para ao menos permitir evocar-se aquela natureza original.

Boa leitura.

Hélder F. Madeira

A canoa avançava lentamente, cortando as águas escuras do Santo Antônio, que banham as terras da fazenda Mangabal. Sentado à popa, o canoeiro ia impelindo a embarcação no rumo da mata embrejada que cobria, em toda a extensão, a margem esquerda do rio. O remo servia ao mesmo tempo de leme; e, ao ser mergulhado na água, provocava um ruído monótono que feria, com insistência enervante, o silêncio da mata.

O matagal desdobrava-se numa desordenada massa de troncos e cipós. Não se divisavam sinais de margem: impossível distinguir onde acabava o rio e começava a terra firme. Era o marimbu solitário e miasmático – ondulante bosque aquático aglutinando lama, folhas e hastes no pântano, para em seguida se fundir na mata, suprimindo as fronteiras do barranco e do rio. As árvores mais próximas, os pés de aração e de embucha-veado, emergindo do charco, como que se prolongavam nas touceiras de tabua e de piri que sobre o rio se alastravam numa sucessão interminável de caniços verdes. As moitas de junco, enlaçadas pelas baronesas de folhas espalmadas em bandejas flutuantes, formavam inextricável rede de raízes submersas – maranha anfíbia represando a água, que ali terminava por apodrecer, na lenta maceração dos detritos vegetais trazidos da mata nas alagações.

A canoa continuava a deslizar sobre as águas. De repente, quebrando o silêncio, um confuso rumor veio de dentro dos marimbus. Burro e cavalo espantaram-se. Prudente, num gesto rápido, Jenner levou a mão ao cabo do revólver.
– São as capivaras – disse calmamente Manuel João, sem parar de remar.
– Lá vão elas! – exclamou Ricardo, que em outros tempos as caçava na beira do rio.
Jenner perguntou:
– Onde?
E disse- mais para se convencer de que não pensara na possibilidade de ser outra coisa.
– Lá! Olhe lá!
E Ricardo apontou o dedo na direção dos animais.
Mas Jenner não chegou a vê-los. Uma rápida sucessão de baques nas águas – e de novo as moitas se fecharam como leques, recaindo o silêncio sobre os marimbus.

A canoa acabava de entrar em pleno marimbu. A poucos centímetros de profundidade, a matarana entretecia uma rede de tenros caules – chumaços de mato mole que criavam para o rio um falso leito. Sobre eles se abriam, em placas vermelhas, as folhas novas dos golfos. As águas ocultavam-se sobre as moitas de junco. Habilmente, Manuel João conduzia a canoa através da difícil passagem, afastando com o remo os tufos da matarana. Os animais, que já podiam tomar pé, comprimiam-se entre a embarcação e as touceiras de piri.

Os pássaros tinham deixado de cantar. Bigodes, juritis e azulões dormiam agora nos ramos das quixabeiras. De quando em quando, alguma ave noturna esvoaçava dentro da mata, desferindo a praga de um grito áspero.

Na escuridão, a presença da mata se fazia sentir no cheiro agreste dos lourões, dos espinheiros e dos paus-d’óleo – cheiro de folhas, de casca úmida de árvores, de resina fresca, cheiro de terra fofa e de húmus, que impregnava o ar de um potente hálito de vida.

– Sucuiuiú é um bicho muito traiçoeiro – atalhou Ricardo. – Se ele tem dado o bote laçava todo o mundo de uma vez. Não ficava ninguém pra contar a história.
– Essa cobra não é sucuri? – perguntou Jenner.
Ricardo nunca ouvira pronunciar aquele nome:
– Sucuri? Não, senhor. Ela sempre foi conhecida aqui como sucuiuiú. Pelo menos, desde que eu entendo por gente.

– Já houve caso de algum sucuiuiú comer gente aqui?
– Pescador, mesmo, não. Mas tem coisa de uns cinco anos que um comeu o menino de Mamelão.
– Alguém chegou a ver?
– Não, senhor. Mas, como o menino tinha ido tirar uns araçás nos marimbus e não voltou mais, a gente só pode fazer essa idéia. Só sei dizer é que Mamelão quase fica doido…
– De qualquer maneira, ninguém está escapo de ser comido por um bicho destes – observou Ricardo. – Sucuiuiú é o maior inimigo dos moradores desta beirada de rio.
– Mas será que nunca nenhum pescador foi atacado? – insistiu Jenner
– Eu mesmo nunca vi – disse Manuel João. – Mas o finado meu pai e os antigos contavam muitos casos de pescadores que desapareceram nos marimbus sem ninguém saber como.

– Hoje é dia de muito roceiro ir vender peixe em Andaraí e eu não podia deixar de esfolar o sucuiuiú logo de madrugada. A mulher foi depois, com os meninos, pra me ajudar a trazer os peixes e a banha.
Jenner lançou um olhar à gamela:
– É a banha do sucuiuiú?
– Sim, senhor. Vou fritar ela e engarrafar. Em Andaraí o povo procura muito. Não existe nada melhor pra curar reumatismo.

Foi-se fechando a mata: a ramagem densa ensombrava o chão recoberto de ervas e arbustos, e a brenha investia súbita contra o caminho, as árvores irrompendo desordenadamente e múltiplas. Pendiam delas, enlaçando-as, cordoalhas de fibrosos cipós. Os troncos acumulavam-se por toda a parte, negros e rugosos, engrifando a galharia nas copas imóveis e pesadamente verdes. Grossos itapicurus projetavam sobre a estrada, como se quisessem detê-la, as garras do raizame; e por trás deles, de emboscada, os espinheiros enredavam-se em caramanchões sinistros. Caules, ramos, hastes, tudo se fundia num atravancamento caótico, tentando vedar a passagem. Dir-se-ia que a mata procurava resguardar-se, defender-se em seu recesso. Um único ruído perturbava o silêncio: as pisadas dos animais.

Foi seguindo. Finas réstias de sol, que mal varavam a folhagem emaranhada, luziam em feixes no fundo da vereda. Ao vencê-la, viu desfeita a impressão de estar penetrando um mundo ciosamente preservado. Saíra numa clareira. No chão havia sinais de pneus em trilhas paralelas: o carreiro de um madeireiro desembocava ali.

Jenner fez parar o cavalo: o local encontrava-se devastado. Toros de várias dimensões espalhavam-se em desordem no solo, rolados sobre extensa e áspera esteira de cavacos – estilhas de madeira disseminadas durante o corte das árvores. Em derredor, amontoavam-se mutiladamente os ramos confundidos na garrancheira morta.

Com a atenção presa aos toros, Jenner pouco ligou à conversa entrante. Foi-se afastando dos três homens, ao passo que examinava esta ou aquela peça de madeira; calculava o diâmetro de uma, de outra o comprimento, despojava-as mentalmente das costaneiras, e visualizava-as deslizantes na engrenagem das serras mecânicas, estimando-lhes o rendimento industrial. E em pensamento ia falqueando-as, talhando-as, acepilhando-as, obcecado. Em pouco, todo aquele estendal de toros se desbasteceu na poalha de uma serragem imaginária, e dela emergiu, simétrico, entre maravalhas, um mundo de tabuados e esquadrias.

Jenner relanceou os olhos: os ipês centenários e profusos, de troncos em ponto de corte, assumiam maior relevo na planura da roça destruída.

Todo um largo trecho despovoado da mata se ofereceu à observação de Jenner, sob o céu ensolarado, liso, por onde esvoaçava a alacridade matinal dos sabiás. Margens em fora, cedros e lourões alçavan-se enfolhados, sobranceando o ínvio das moitas de rasga-beiços. Em meio à variedade das árvores sucessivas, entremostravam-se nos seus grávidos troncos as barrigudas. Um odor de resinas balsamizava o ar.

Chegara à encruzilhada. A mata rebentava numa floração agreste e vária – flores lilases, azuis, brancas e amarelas. As vermelhas recobriam uma touceira de coroas-de-cristo e nela pareciam sangrar: surdia-lhe dentre os espinhos a corcova de um murundu, como se o chão, acaso ferido, tivesse sofrido uma súbita contração de dor.

– Vou explicar mais detalhadamente a minha proposta.
Considerava-a secretamente o seu último cartucho. Sabia das dificuldades do coronel em levantar capital suficiente para os investimentos básicos de uma extração de madeira em larga escala, a começar pela aquisição de caminhões destinados ao transporte dos toros Com o correr dos anos, o velho fazendeiro realmente se tornara proprietário da maior área de matas do município; vivendo, porém, numa região de economia subdesenvolvida, continuava um homem de finanças poucos sólidas.
– Podemos fornecer aos senhores todo o dinheiro necessário à exploração das matas – começou Jenner. – É um negócio que reputo interessante, como já disse. Pelo menos, os senhores não terão necessidade de empatar capital.

A Serraria Santa Bárbara abriria um crédito a favor deles para a compra de dois caminhões e custearia as despesas da extração mediante um adiantamento de trinta contos em dinheiro. O financiamento asseguraria à firma direito sobre toda a madeira extraída, sujeita, porém, à escolha, segundo as normas usuais do negócio, e posta em Itaetê, local de embarque na estrada de ferro.

Para além da porteira, manifestava-se a atividade do novo proprietário: a derrubada da mata. Das grandes árvores de outrora, nenhuma em pé; tocos de pontas agressivas espalhavam-se numerosas, sugerindo destroços de uma estacada erguida para a inútil defesa dos terrenos. Trilhas de pneus indicavam um rumo; o rasto dos caminhões era o daFazenda própria devastação que eles levavam adiante, com os toros das cargas renovadas ao longo dos carreiros – vias de acesso improvisadas pelos madeireiros no curso da penetração das matas.

Calmamente, o padre desdobrou a carta, escrita em papel timbrado da firma S. Nogueira Chaves & Cia., proprietária da Serraria Santa Bárbara, em Salvador, casa especializada na venda de madeiras da Bahia, serradas ou em toros, com estoque apregoadamente variado. As linhas impressas, encimando o texto manuscrito, deixavam entrever um mundo de serras vorazes e guinchantes, a transformar florestas em barrotes e rodapés, caibros e soalhos, forros e vigamentos, cornijas, molduras, ripas, marcos e contramarcos – com “presteza e perfeição”.
Foi lendo:
“Meu caro Padre Dr. Elmano Coelho:,
Esta lhe será entregue pelo meu irmão Jenner, que desde já lhe apresento. Ele está em negócio com a Fazenda São Marcelo. Virá a ser, portanto, vizinho do prezado amigo. Espero, pois, que a presença dele aí só faça fortalecer as nossas relações, que sempre foram as melhores.
Por ele estou lhe remetendo a importância de 20:000$000 (vinte contos de réis), que o senhor me pediu como adiantamento pela madeira já cortada. Queira ter a bondade de fornecer a Jenner o competente recibo.
Quanto aos preços, continuam os mesmos por madeiras postas em Itaetê, para embarque na estrada de ferro:
ipê, pau-d’arco e peroba – 350$000 o metro cúbico
cedro – 450$000 o metro cúbico
bastião-de-arruda – 1:200$000 a tonelada
São estas as madeiras que mais me interessam. É preciso intensificar a extração do ipê, e nesse sentido o senhor poderá conversar com Jenner, que está autorizado a resolver qualquer negócio meu aí.
Sem outro assunto para o momento, firmo-me
Amigo ao seu inteiro dispor
Sóstenes Chaves.”

– O senhor vai fazer bons negócios aqui. As matas são muito ricas em madeiras.
Jenner o reconhecia. Estivera observando no decurso da viagem; as matas eram praticamente virgens.
– E imagine o senhor que durante quase um século, desde a descoberta do diamante, o povo de Andaraí nunca pensou em outra coisa que não fosse garimpo – volveu o padre. – Estas matas andavam abandonadas. Era como se não existissem. Digo-lhe uma coisa: se o povo de Andaraí, desde o começo, tivesse voltado as vistas também para as matas, este município talvez fosse hoje o mais importante do Estado.
Jenner não se mostrava interessado nas observações feitas. Afinal de contas, se as coisas se houvessem passado de outra maneira, ele não iria encontrar uma árvore para cortar nas matas de Andaraí. Igualmente beneficiário daquela situação, o Padre Coelho tinha, contudo, motivos especiais para se revoltar contra ela:
– Quem tirou partido disso foi esse tal de Coronel Moreira que anda por aí. Um espertalhão! Enquanto o povo de Andaraí se entregava de corpo e alma ao garimpo, atrás dos diamantes e dos carbonatos, ele foi se apoderando de tudo que podia aqui nas matas. Não sei de maior absurdo! O negócio era na base do roubo, meu caro amigo, do roubo mais desavergonhado.
E pressentindo no semblante de Jenner uns longes de incredulidade:
– Não foi difícil para ele. O homem vivia acobertado pela política. Invadiu os terrenos do Estado, e requereu posse baseado em falsas benfeitorias. Saiu medindo terras a torto e a direito. Ninguém dava um pio. Resultado: acabou dono de um latifúndio.
Desprendeu complementarmente um gesto generalizador:
– Enfim, coisas do banditismo das Lavras. Mas ainda bem que a situação hoje é cerca e pastodiferente. A revolução de 30 teve um lado bom: desarmou os chefes políticos e acabou com os desmandos deles no sertão.

Alongou os olhos: tudo ia ganhando contornos na luz matinal – cercas, árvores, cancelas, um feixe de lenha desfeito. E nesse desavolumar de sombras revelava-se a paisagem da fazenda, a desdobrar-se num verde matagoso e orvalhado, ressumando a fresca sensação do amanhecer.

Via à direita, banhadas já de sol, as velhas mangueiras da chácara; o grande jenipapeiro, no extremo da cerca do pasto, e subindo por ela invasoramente as ervas; defronte da casa, os cochos vazios; e, para além do curral deserto, o sem-fim da mata.

Da área visitada pela manhã trouxera certeza bastante de que ia realizar o melhor negócio de sua vida comprando o São Marcelo. E essa impressão de entusiasmo confirmava-se, ampliava-se em sua nova incursão na propriedade. Continuava a mesma riqueza florestal, a mesma variedade e abundância em madeiras de lei – árvores a multiplicarem-se compactamente num mundo brenhoso e intacto.
– Dobre à direita, patrão – avisou o velho Onofre. – Por aí mesmo. Pode ir seguindo.
O local indicado era uma vereda aberta entre mucuíbas linheiras, alongadamente esconsa e umbrosa. Por ela se internou Jenner, sob o folhame espesso de exuberante ramada; e, como se resguardasse algo inviolável, a vegetação margeante adensava-se engrazava-se. Um esquivo silêncio envolvia a mata.
– Espere aí, patrão – voltou a falar Onofre, mais adiante.
Pôs-se à frente, enquanto Jenner mantinha o cavalo enfreado, desembainhou o facão e, num largo e firme estralejar de golpes, esgalhou os espinheiros entrançados no caminho.
Aberta a passagem, prosseguiram os três homens pela vereda que os conduzia através dos meandros da mata. De uma e de outra margem, as árvores alçavam-se num atravancamento alucinatório, onde mal sobressaíam as perobas, as umburanas e as paraíbas, colhidas na rede multiforme dos cipós. E do matagal desprendia-se um hálito servoso de cascas e de folhas, agrestemente ácido, ensombradamente fresco. A espaços, o canto de um sabiá ou de um cardeal ressoava melancolicamente e perto, num frufulhar de asas inquietas.
– O finado Exupério só vinha aqui quando ia caçar – observou Onofre. – Nunca teve pastagens nem roça por estas bandas.
Pouco depois alcançavam uma clareira. Os ipês e os paus-d’arco assomavam num desafogamento verde, sobrelevando a vastidão da mata virgem; e o sol, a derramar-se em fremente claridade, avivava-lhes os matizes róseos e amarelos das copas enfloradas. Jenner estacou, circunvagou os olhos com assombro. E, no aturdimento daquele regozijo, reconheceu que não havia tempo a perder. Já vira o necessário para certificar-se das colossais reservas de madeiras ali existentes. Escusado ir além. Embora datasse de alguns anos a exploração das matas de Andaraí, confirmava-se naquele instante a revelação inacreditável: nenhum madeireiro chegara ainda ao São Marcelo. Ele era o primeiro! A fazenda estava intocada à sua espera. Num alvoroço, volveu o pensamento para a escritura. E repentinamente decidido:
– Pode voltar daqui, Onofre. Vou seguir agora mesmo com Ricardo para Andaraí.

– Como vai de roça?
E o outro:
– Os caititus me deram um prejuízo danado este ano.
Ricardo conhecia bem a luta dos roceiros contra aqueles animais invasores. Outros havia ainda, tatus e preás, roedores daninhos, e até os micos, capazes de estragar as roças e arruinar a colheita. Os cães, mantidos em vigilância, ajudavam a escorraçá-los; os caititus, porém, exigiam meios mais eficazes de combate.

Enquanto comeram, a conversa girou em torno de assuntos relacionados com a região, e inevitavelmente se encaminhou para a extração de madeiras. João Camilo remontou à história de Fachinetti, iniciador daquele comércio no município. Fazia cerca de vinte anos. O italiano viera para o distrito de Bandeira de Melo, à margem da estrada de ferro, e instalara ali uma grande serraria, onde eram beneficiadas as madeiras extraídas nas matas do Paraguaçu. Durante algum tempo os negócios correram bem. Mas depois, com a incessante elevação das tarifas, a exportação de madeiras beneficiadas deixou de ser compensadora. Fachinetti fechou a serraria. E passou a transacionar apenas com toros, pois o transporte ferroviário de madeira bruta oferecia considerável diferença de preço.

Este se admirava de não ter havido em Andaraí – onde correra tanto dinheiro na época – ninguém interessado na compra da serraria, quando esta se fechara. Devia ter sido, de qualquer maneira, um bom negócio.
– Vosmecê não conhece as Lavras – disse o fazendeiro. – Os homens ricos desta região só acreditavam no comércio de diamantes. E não pense vosmecê que a situação se modificou muito. Ainda hoje o município continua praticamente a viver em função dos garimpos.
– Mas os garimpos já deram o que tinham que dar – observou Jenner. – Pelo menos, é o que tenho ouvido dizer.
Não era bem assim. Conquanto houvesse decaído bastante nos últimos anos, a produção diamantífera persistia grande – suficientemente grande para que o povo andaraiense abandonasse aquela sua tradicional atividade.
Mas João Camilo admitia:
– Depois da morte de Fachinetti, com a vinda de Raimundo Soares para Andaraí, o comércio de madeiras começou a ganhar algum incremento. O velho Raimundo foi o verdadeiro pioneiro da extração de madeiras aqui nas matas. Hoje ele vive em Itaberaba. Está muito doente. Depois dele, vieram os outros madeireiros. E a indústria vai se firmando, como vosmecê bem sabe. A grande fonte de produção do município, entretanto, continua a ser o diamante.
– Mas a madeira vai suplantar tudo – observou Jenner, num convencimento, tirando do bolso o maço de cigarros.

– O senhor não acha que tenho razão? – continuou Jenner, depois de acender o cigarro.
– Não sei do que vosmecê está falando.
– O senhor não acha que a madeira vai suplantar tudo?
O fazendeiro sacudiu com lentidão e negativamente a cabeça.
– A extração de madeiras vai arruinar estas matas.
Jenner vacilou, na impressão de uma surpresa inquieta:
– Arruinar as matas?
– Arruinar as matas e o município. Saiba vosmecê: estão cortando madeira demais. Estão fazendo uma verdadeira devastação por aqui.
E João Camilo entrou em considerações sobre as terras do município. E era singular ver como aquele homem de cabelos brancos, já passado o tempo dos entusiasmos e das ilusões, assumia um ar confiante, tocado da ternura de velhas esperanças, ao falar da qualidade daquelas terras calcáreas – as melhores do Estado da Bahia. Sinal da fecundidade generosa delas, cresciam ali os itapicurus, exuberantemente desenvolvidos e profusos, a cobrirem largos espaços daquela gleba, numa farta promessa de vida futura.
– Mas estas terras estiveram sempre abandonadas – explicava João Camilo. – Afora o Coronel Moreira, o finado Coronel Exupério e eu, ninguém se interessava por agricultura nestas matas.
Jenner lembrou-se do trator. A presença daquela velha peça mecânica no barracão excedia o mero interesse agrícola: revelava uma tentativa, inacreditável, de inovação nos processos de beneficiamento de terras naqueles confins.
João Camilo, no entanto, não atribuía maior importância à iniciativa: a compra do trator bem pouco significava em face da experiência dos belgas na Fazenda Iguaçu, para os lados do rio Una. Mobilizando grandes capitais, tinham eles empreendido uma obra colossal no sentido de introduzir a agricultura na região, cultivando terras de uma área que abrangia mais de doze léguas. E haviam-se malogrado. A dificuldade de transporte, a falta de ajuda do governo e, principalmente, a atração exercida pelo garimpo sobre o trabalhador braçal, tinham criado obstáculos definitivos à expansão da companhia. No fim de algum tempo, encerrara ela as suas atividades e o mato voltara a tomar conta de tudo.
– Comprei o trator a eles – esclarecia o fazendeiro. – Mas nada pude fazer, também. As terras são muito boas, como já disse a vosmecê. O problema, no entanto, continua sem solução: ninguém quer cuidar de lavoura aqui no município. O trabalhador é inevitavelmente seduzido pelos garimpos, na esperança de enriquecer de uma hora para outra. O diamante é uma verdadeira cachaça. Por isso mesmo, os madeireiros estão encontrando dificuldade em aliciar gente para trabalhar nas matas. Quase todos os pauzeiros são trazidos de fora, de outros pontos do Estado. Mas, chegando aqui, com o correr do tempo, vão abandonando as matas e indo para as serras, sobretudo quando se descobre um garimpo novo.
E João Camilo reentrou a falar da excelência das terras da região. Os garimpos haveriam de se esgotar um dia. Quando isso acontecesse, o povo de Andaraí teria finalmente de voltar-se para a agricultura – única fonte de riqueza capaz de consolidar a economia do município. Mas ele temia que isso ocorresse demasiado tarde. A devastação operada pelos madeireiros acarretaria perturbações climáticas desastrosas para aquela extensa área. Não se cuidava do reflorestamento. E o que era, então, mata, poderia de futuro transformar-se num deserto.
Jenner escutava-o com atenção. Mas aqueles temores de uma vaga ruína municipal, o tom enfático daquelas cogitações teóricas, se lhe haviam causado impressão no começo, acabaram por enfadá-lo, criando entre ele e João Camilo uma distância invencível. Tinha interesses muito imediatos e pessoais para se ocupar com os problemas daquele fazendeiro visionário.
Contudo , ao abordar o assunto da compra de madeiras, foi com um espanto sincero, enternecido de respeito, que ouviu João Camilo dizer:
– Eu não posso assumir o compromisso de fornecer madeiras a vosmecê. As árvores têm vida, como um ser humano. Vosmecê me desculpe, mas, para mim, cortar uma árvore é como se fosse um crime.
E desviando os olhos para a janela aberta e mergulhando-os na escuridão:
– Eu só posso vender a vosmecê as árvores mortas. São as únicas que eu corto aqui na Sapucaia. Essas eu poderei negociar com vosmecê. Vamos esperar. Deixemos que as árvores morram primeiro.

De novo o caminhão se pôs em movimento, roncando aos solavancos dentro da mata. Casas de cupim encalombavam as estacas de uma velha cerca, que ia ficando para trás, entressumida nuns muricizeiros amoitados.

O caminhão começou a descer uma ribanceira. Súbito, a mata desembrenhou-se num largo espaço descoberto; e, naquele descerrar de vegetação, o céu mostrou-se todo, inundado da claridade vibrante da manhã. Haviam chegado ao Pontal. Embaixo, estendia-se o rio Santo Antônio, como adormecido ao sol. A água dir-se-ia parada, mas seguia o seu curso imperceptível, num deslizar sinuoso e denso. A paisagem diferia daquela da orla ribeirinha dos marimbus, na fazenda do Coronel Moreira. As margens desdobravam-se nuas, sem o ínvio emaranhado aquático dos pirizais e tabuais. Nenhum espapaçar de charcos por ali. O rio se espraiava livremente, recortando a brancura alongada e fofa de um areão.

(…)o rio escuro, no seu fluir adormecido, criava uma impressão de solidão total (…)

As águas ladeavam o barranco à direita, numa curva da mata, e iam desaparecer adiante, costeando um hirto paredão. E daquele fundo enconchamento, onde o rio parecia ter fim, desprendia-se um como pressentimento de mistério, sugerindo um perigo oculto e indeterminado.
– A duzentos metros daquela pedreira o Santo Antônio deságua no Paraguaçu – disse Abubakir, dirigindo-se a Jenner, que fora encostar-se à portinhola da cabine.

– Quando o rio está cheio, nós descemos com os toros por aqui, comboiando eles de canoa até Itaetê. Mas o Padre Coelho bobeou. Jogou os dele quando as chuvas já estavam terminando. Resultado: muitos toros foram ficando pelo caminho, enganchados nos bancos de areia.

Do outro lado do rio era bem melhor a estrada. O caminhão corria veloz, livre da ramada baixa dos pagamentos, sem encontrar declives bruscos e sulcos de atoleiros – empecilhos tão comuns no labirinto da brenha, que ficara para trás. A vegetação tornara-se menos exuberante , e grandes claros rasgavam-se naquele verde de árvores lenheiras, marcado pela folhagem dos paus d’óleo e dos paus-pombos.

O sol, já quase no meio do céu, derramava sobre as árvores uma luz intensa. Pássaros voavam dos ramos, à passagem do caminhão, e dispersavam-se assustados no ar.

Ali estava a cidade. O casario estendia-se no centro de um vale, entre o verde das matas e o azul esfumado das serras, como delimitando, naquele defrontar de regiões desiguais, as próprias fontes de riqueza do município: madeiras e diamantes.


Warning: count(): Parameter must be an array or an object that implements Countable in /home/storage/7/c0/a3/marimbus/public_html/wp-includes/class-wp-comment-query.php on line 405

Deprecated: Directive 'track_errors' is deprecated in Unknown on line 0